A gorda divertida e os estereótipos

Há um tempo prometi escrever sobre o estereótipo visto na atriz Rebel Wilson, mas antes eu precisei mesmo fazer uma pesquisa sobre ela acompanhando o Instagram e acabei confirmando algo que eu sempre soube. Vem cá que eu te conto.

Rebel Wilson, como muitas já puderam perceber, muitas vezes encarna o típico papel da gordinha divertida que sempre faz todo mundo rir. Ela é engraçada, ela é descarada, ela é desbocada, é afrontosa, é caruda, tem reações dramáticas e muitas vezes faz um tipo folgada. Todas as suas ações são tidas como uma comédia constante e isso até irrita algumas gordas que não querem – obviamente – ser vistas como a gorda que é obrigada a ser engraçada (e não tiro a razão delas). Só que o que eu vi enquanto eu a acompanhava foi uma coisa totalmente diferente. A Rebel não faz a gorda engraçada. Ela tem a personalidade espontânea dela e são as pessoas que transformam isso em cômico.

rebel

É fato que ela tem umas tiradas excelentes especialmente porque notei que muitos tentam intimidá-la com perguntas e exposições desnecessárias, tudo em nome do showbizz. E esse tipo de coisa eu admiro muito em quem tem (a maioria dos meus contatos no Facebook inclusive tem esse tipo de humor ai). Só que ela não é uma fábrica de piadas. Os outros tratam ela assim.

Atualmente ela está apresentando Guys and Dolls na Brodway e em um vídeo do ensaio ela aparece com um bastão na mão e as pessoas estão cantando e dançando e ela está perdendo o momento dela. Então, com uma pegada meio perdida, ela roda um pedaço da sala e coloca o bastão perto de uma mesa e o mesmo cai no chão e ela continua o ensaio cantando e dançando de uma forma séria e as pessoas começam a rir como se aquilo fosse algo engraçado só que não é. Eu me formei atriz e sei como é a pressão de você estar errada em um momento e ter que se virar como pode. foi o que ela fez. é a pressão d’O Show Deve Continuar e isso não é nada engraçado (e com certeza é mais pesado na Brodway que no Macunaíma).

As pessoas estão tão acostumados aos papéis que ela é chamada para fazer que se confundem com a personalidade dela e por se tratar de uma pessoa muito espontânea, tudo se confunde. Mas isso não vem só do papel dela. Vem do fato de que ela é gorda e gordos são sempre estereotipados como se fosse uma fôrma de concreto pra nunca mais sair dali.

Peguem como exemplo a Fabiana Carla. Sempre fazendo papel cômico e tudo mais, quando ela apareceu na novela como uma gorda desesperada, as pessoas levavam a violência sofrida por ela como uma coisa engraçada. e não era engraçado. Era para denunciar o que nós gordos sofremos no dia a dia e sim, aquele desespero está muito presente em muitas mulheres (a Lika do passado comprova isso) porque você cresce ouvindo que ninguém vai te querer e quando um te quer é como agarrar um troféu a qualquer custo e tem que rolar muita desconstrução e muito amor próprio até você sacar que não é bem assim. Esta deveria ser a mensagem, mas claro, passaram a mensagem como o toba de alguém.

Outro exemplo é a Queen Latifah. Ok ela está mais magra hoje em dia, mas vamos nos lembrar de uns tempinhos atrás. Lembram do papel dela em Chicago? Ela foi a Mamma Morton, uma carcereira linha dura. Em Hairspray ela foi a Maybelle que também era a poderosa. Filme após filme ela sempre é aquela que peita o mundo, a afrontosa, a que dá tapa na cara se for preciso. Até quando ela fez um filme (de comédia) onde ela achava que ia morrer ela se mostrou forte sempre e saiu gastando a grana dela viajando pra onde ela queria. Não me lembro de um filme onde ela foi a fraquinha, a donzela em perigo (se houve, foi um fato raro). No caso a Queen Latifah une dois estereótipos: a gorda durona e a negra “brava” mais conhecida como ABW (Angry Black Woman) como se mulheres negras e especialmente as gordas saíssem dando pontapés nas bundas ao invés d dar bom dia. O mesmo aconteceu com Leslie Jones em As Caça Fantasmas.

Não sei se vocês sabem como é a vida na mídia mas eu já tive essa oportunidade e honestamente não é mole. Mesmo você sendo influente, muitas vezes você se vê obrigada a representar papéis que você não aceita muito, porque você não coloca em risco só um salário de uma produção, mas coloca em risco toda uma carreira. E uma vez sua carreira destruída no meio dos grandes, você só volta com um preço MUITO alto. Portanto vamos respeitar o trabalho dos atores que envolve muito mais do que pensam.

Por que estou contando isso? Porque provavelmente a Rebel só é escalada pra esse tipo de papel e é um trabalho dela. Ela acaba se submetendo a esse tipo de papel. Não é que ela só saiba fazer isso. Provavelmente é a única oportunidade que dão. E como as contas vencem em dia, é preciso pagar em dia. Assim como a Leslie Jones. Assim como a Queen Latifah. Assim como diversas mulheres que caem em estereótipos no cinema. Assim como as gostosas estilo Bond Girl ou garotas da cerveja. Isso vem sempre da objetificação da mulher (não só do corpo mas vendem uma personalidade como produto também).

Agora, indo um pouco mais além, vamos parar pra pensar que as coisas que ela faz não  são necessariamente engraçadas, mas que o fato de ela ser gorda a tornam engraçadas? Analise as situações em que as atrizes usadas de exemplo representam. Seria mesmo tão engraçado se fosse uma magra branca de olhos claros fazendo? Será que um homem magro como o Jim Carrey – extremamente caricato – conseguiria ser tão espontâneo e engraçado ao mesmo tempo? Porque mesmo que eu admire demais o Carrey, ele é um cômico caricato. Mas ao mesmo tempo ele tem a oportunidade de nos surpreender em diversos personagens porque deram a ele estas oportunidades.

A espontaneidade encontrada na Rebel, na Latifah, na Leslie e em outras, se torna uma coisa cômica porque o que as pessoas esperam de fato é uma gorda tímida sentada no cantinho esperando a amiga magra agitar ela pra um cara e aparecer na cena com aquele sorriso tímido antes do cara fazer uma careta estranha e dizer “Mas eu quero você” para a magra. Inclusive, o mesmo vale para cenas com deficientes e pessoas estrábicas.

Mesmo que a gente tente se desvencilhar disso, muitas vezes a cena só se torna cômica e, consequentemente, gordofóbica, porque é usada uma pessoa gorda. E se for uma pessoa magra? Será que teria o mesmo impacto? Como exemplo, sugiro a cena da dança do filme Agente 86. Alguns vêem uma cena de comédia. Para mim é uma mulher arrasando na pista de dança (apesar da careta idiota de Steve Carell).

É óbvio que existem os estereótipos. É óbvio que nos encaixam neles. Só que ao mesmo tempo que fazem isso, também transformam em cômico qualquer comportamento diferente da gorda tímida no canto da pista. E isso acontece todos os dias.

Eu estou falando isso não só pelas atrizes de Hollywood. Não só pelas gordas da mídia. Estou falando por mim, pela minha personalidade que é um misto de Rebel Wilson com Holtzman (das Caça-Fantasmas). Se vocês me conhecerem um dia (espero ter essa honra) verão que o tempo todo ou eu tenho meus trejeitos que fazem as pessoas rirem ou eu solto uma ironia, ou de repente eu dou uma resposta ácida pra algum folgado, enfim estou o tempo todo fazendo as pessoas rirem. Mas isso porque é meu jeito mesmo, eu não forço nada eu só sou assim. E não conheço outra maneira natural de ser eu mesma. Claro que eu já tentei ser mais delicada tímida etc etc mas confesso que nem no teatro eu aprendi a fazer papel de tímida então muitos acham mesmo que eu forço um estereótipo e eu não os culpo por achar isso (mas também to nem aí pra isso). Não temos que ser as gordas recatadas do lar. Podemos ser bocudas e afrontosas. Não vejo tantas pessoas reclamando da Lady Gaga que é mais caricata que a Rebel.

Tudo bem de você ser gorda e não se sentir representada por uma gorda X. Tudo bem de você dizer “Eu sou gorda e Adele não me representa” ou “Eu sou gorda e Rebel Wilson não me representa”. Tá tudo bem mesmo é sério. Isso não quer dizer que as gordas que não te representam não vão representar ninguém mais. Isso também não quer dizer que haverá um consenso. Nenhuma gorda é representante das gordas do mundo. Somos todas pessoas com personalidades diferentes e tá tudo bem você ter a sua deusa e outras terem suas deusas particulares. E tá tudo bem também terem suas divas e transformarem militantes em suas divas particulares porque a gente acaba tendo sim nossas divas, nossas modelos, nossas musas inspiradoras, tá tudo BEM você seguir quem você gosta. A única coisa que não está bem é tentar determinar quem deve ou não ser a diva das outras ou achar que elas são culpadas pelo que a mídia faz com elas. Isso não é uma indireta caso alguém esteja pensando mas eu resolvi escrever porque eu falei com MUITAS pessoas e achei que era um assunto urgente a ser comentado. Então fiquem de boas comigo ❤

Moças, entendam que você mulher sempre vai cair em um estereótipo segundo a mídia e a sociedade. Alguns homens também mas a maioria acontece com as mulheres. Se você é magrinha, é a delicadinha a nerdzinha. Se você é a gorda, você é a engraçadona ou a tímida ou a bruta. Se você é negra tem grandes chances de ser a ABW. Se você é saradona vai sempre ser a Gostosa Burra ou a Bond Girl que pode ser mega inteligente mas a câmera sempre vai focar nos seus peitos saindo da água. Enquanto a objetificação da mulher for uma realidade, sempre seremos embaladas e vendidas como produtos, sejam nossos corpos, nossas personalidades ou o pacote completo das manic pixie dreams ou as belas recatadas do lar ou as malucas desbocadas que transam muito. Combos feitos, peça pelo número. O problema não é bem o que você faz. O problema é a generalização achando que porque uma gorda é engraçada, todas são. Porque não são.

Então por causa disso eu te dou um conselho: seja você mesma independente do que disserem. Não tenha medo de te considerarem um estereótipo porque você NUNCA vai ser um.

A vida é curta demais pra tentar ser o que não somos.

kiss the fat girl assinatura

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