Ninguém aqui odeia magros

Muitas e muitas vezes recebo comentários de pessoas dizendo que eu odeio magros, que eu prego magrofobia, que eu não tenho empatia com pessoas magras, que magros também sofrem e por aí vai. Só quero dizer que vocês estão super errados.

MAGROFOBIA não existe. Não existe um comportamento que exclua pessoas magras por serem magras da mesma forma que pessoas gordas são excluídas por serem gordas. Não existe um ódio contra pessoas magras por serem magras da mesma forma que existe o ódio contra as pessoas gordas por serem gordas. Não existe o silenciamento e a negligência contra pessoas magras da mesma forma que existe contra pessoas gordas. A coisa é tão feia que uma vez estava conversando com um amigo que trabalhou por 10 anos com processos seletivos para algumas empresas e ele me comentou o seguinte:

Para algumas empresas, se eu tiver uma sala com uma gorda que teve a melhor nota e uma magra que teve a pior nota, a magra fica e a gorda é dispensada.

A gordofobia é tão excludente que não importa a capacidade de uma pessoa pra atender o telefone. Se você é gorda, você não tem emprego.

Pessoas gordas sofrem o tempo todo por ser gordas. Não se trata apenas de levar toco dos crushes babacas (quem nunca) ou da dificuldade de encontrar roupas bonitas. Ser gordo é não ter lugar no mundo. NENHUM lugar. Nem no hospital para uma cesárea, nem pra voltar de ônibus pra casa, nem pra entrar em uma balada onde ela está PAGANDO pra entrar, nem sequer na hora de morrer.

Ah mas Lika, por que então vocês não emagrecem pra não passar mais por isso?

Porque ser gorda envolve diversos fatores. Porque eu não consigo. Porque eu não posso. Porque eu não quero. Porque RESPEITO não é inversamente proporcional ao tamanho do meu corpo (pelo menos não deveria ser). Porque eu tenho capacidade de tocar uma empresa, porque eu sou boa no que faço, porque eu sou inteligente, porque eu sou uma boa namorada, porque eu faço sexo gostoso, porque eu sou legal, porque eu sou boa amiga, porque uma caralhada de coisas que não tem a ver com o meu corpo e tudo o que fazem é julgar pessoas gordas pelo corpo e depois saírem chorando aquele tsunami magro que ninguém merece ver.

O que eu acho mais irônico quando eu recebo choro magro é que a maioria sempre pede mais empatia, pra ser mais amorosa, pra entender os problemas dos magros, pra sacar que magros também sofrem. Caramba ninguém tá falando que vocês não sofrem. Mas nós gordos sofremos com coisas que vocês NUNCA sofrem. E é disso que se trata a nossa luta, pra requerer respeito, coisa que vocês não precisam fazer (pelo menos não nesta parte).

Não precisa ir muito longe. Basta olhar nas redes sociais. Quantas vezes vocês vêem comentários recheados de maldade, de crueldade, de ódio quando se trata de uma pessoa gorda protagonizando algum post? Ou páginas que falam mal e tiram onda de gordos? E músicas? E “piadas”? E “comediantes”? Quantas vezes você viu gordo sendo alvo de chacota e magro sendo alvo de chacota? E no cinema? Norbit, Vovozona, Um Espião e Meio, O Amor É Cego, Professor Aloprado… Quantos filmes tratam o gordo como uma eterna piada? E as versões magras disso? Tem alguém zoando pessoas por serem magras? Até no filme PETs tem uma gata que come ração light e uma cena onde ela come sozinha um frango assado inteiro e um bolo. Ou seja, quando existe um gordo, ou ele tenta fortemente resistir à comida ou cai em uma compulsão alimentar. Não existe meio termo pra gente. Não existe inteligência na hora de representar os gordos.

Entenda, mais uma vez, que  ninguém odeia magros por serem magros. Ninguém olha pro magro e fala que a pessoa vai morrer em 10 minutos, ninguém olha e fala “ninguém vai te querer magra assim”, ninguém te impede de sentar ao lado no coletivo porque você é magra, ninguém te nega vaga de emprego, ninguém te impede de entrar em uma balada, ninguém põe obstáculos no seu caminho por ser magra.

Ah mas quando eu vou à academia me chamam de puta, de fútil. Isso não é ódio?

Não, amiga, isso aí é machismo, é misoginia. Não é magrofobia. Toda mulher que usa maquiagem é chamada de fútil, toda mulher que transa é chamada de puta. Gorda, magra, alta, baixa, branca, negra. Nenhuma mulher escapa disso. NENHUMA. Então quando te chamam de fútil, puta ou qualquer coisa assim, usam uma desculpa pra você e outra pra mim. Mas no fim os nomes são os mesmos por vários motivos diferentes, mas uma só realidade: machismo. Esse tipo de coisa não é exclusiva sua.

O que incomoda muito do choro magro é que vocês não têm um pingo da empatia que vocês querem que a gente tenha. Nós apresentamos queixas sobre não encontrar roupas, não conseguir comprar roupas que não desafiem nossos salários, ser negligenciados por médicos que atribuem uma unha encravada ao fato de sermos gordas como se magros não ficassem doentes, ter direitos negados, sermos expostos e ninguém fazer nada, não existir uma lei que garanta direitos básicos que nos são cerceados desde andar em paz de um ponto a outro sem sermos metralhadas com folhetos de academias ou de lojas que vendem seus produtos emagrecedores cancerígenos, sem sermos apontadas, sem encarar gente escrota se achando no direito de falar um monte de merda enquanto estamos comendo, sem sermos desrespeitados. E daí chegam vocês com “mas eu não consigo encontrar uma calça 34” ou “mas o menino da balada disse que prefere alguém com mais corpo”.

Deixa eu te contar uma coisa: a maioria dos caras está acostumada com a indústria pornô lotada de silicones e lipoaspiração. É por isso que qualquer uma que não se pareça com a Silvia Saint está fora de questão pra esse tipo de boy. E minha dica é: afaste-se deles.

Sempre que nós mostramos um problema, em seguida aparece aquele que quer chamar a atenção. Sempre tem aquela magra que quer chorar porque só acha calça no setor infantil (que bom pra você, pelo menos ACHA). Sempre tem aquela que quer dizer que seus problemas são maiores que os nossos (O QUE NÃO É VERDADEEEE). Sempre tem aquela que quer dizer “Eu sou assim e eu sofro” (procure ajuda profissional). Mas nunca em momento algum esta mesma pessoa cala a boca e presta atenção no que nós estamos reivindicando. E pior: tem gente que ainda fala “eu sofro, mas se você sofre, dá um jeito no seu problema”. Sério!

Você quer mesmo tanta atenção assim? Quer mesmo ser tanto o foco do mundo, o centro das atenções que não dá pra parar um pouquinho só pra entender o que a gente passa? Não dá pra ter metade dessa empatia que você pede? Aproveita a crise e nos poupe, ok?

Eu sei que no texto de hoje eu estou pegando mais pesado do que eu gosto, mas não estão me deixando alternativas. Sempre que comentam algo assim eu vou com carinho, desconstruo, mostro textos, fatos e argumentos, mas o ego é tão maior que não quer ouvir, só quer tentar argumentar por cima e ainda derramar gordofobia falando que se eu estou insatisfeita como o mundo me trata então que eu emagreça para caber nele. NÃO AMIGA. NÃO! É justamente isso que está errado e eu quero mudar o que está errado. Assim como diziam que lugar de mulher não era votando e conseguimos o direito ao voto, que lugar de mulher era cuidando de casa e dos filhos, conseguimos o direito a trabalhar fora, quando nos dizem que não cabemos no mundo, queremos o nosso direito a sermos respeitadas como os seres humanos que somos e mostrar que isso NÃO TEM A VER COM O NOSSO CORPO. É muito simples!

Entenda que ser magro é um privilégio na nossa sociedade atual (e sugiro que você entenda sobre privilégios neste texto da Não Me Kahlo). Entenda que sim, você sofre com comentários que demonstram opressão sobre o famigerado controle sobre o corpo feminino. Mas isso não significa que você sofra uma opressão estrutural social como é a gordofobia.

E sempre, SEMPRE, que vir alguma gorda falando sobre o assunto, segure sua vontade enorme de ir lá falar que você também sofre e ouça os nossos brados, leia nossos textos, entenda como você pode ou não fazer parte disso e melhore seu comportamento. Entenda que não odiamos os magros. Odiamos a gordofobia e por isso combatemos a mesma.

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