Você tem que aprender a rir de si mesma e não da gordofobia

Eu to realmente cansada de ouvir por aí que a gente tem que aprender a rir de si mesmo como argumento pra diminuir a violência que é a gordofobia e ainda jogar a culpa em mim por mostrar o quão babaca foi a “brincadeira”. Então acho que está na hora de mostrar a diferença entre um e outro.

Ontem eu estava lendo este post do BuzzFeed e eu quase infartei de rir com o 15 e o 17 que são coisas que já aconteceram comigo e eu fiquei super constrangida.

beijo

Isso é uma coisa que acontece e é normal você ficar sem graça. E claro, soltar aquela risada pedindo desculpas depois.

Tem uma história também que eu conto que quando eu tinha uns 12 anos o celular não era lá muito comum (tenho 31 pra quem não sabe) e eu estava em casa com a empregada que morava com a gente. Não me lembro o que aconteceu que eu precisava falar urgente com a minha mãe que tinha levado meu irmão – que era criança – ao Karatê. E eu precisei ligar no serviço da telefonista pra pedir o número (tudo bem vintage mesmo). Daí a moça perguntou o endereço e eu não tinha. Perguntou o nome da escola e eu não tinha (fácil né?). Então a Cris – que estava comigo – disse que o sobrenome do casal era Nakama e então eu soltei:

– Moça eu quero o número de telefone do KARATÊ NAKAMA! (Se você não entendeu repita em voz alta).

São quase 20 anos desde então e eu ainda engasgo de rir quando eu conto.

Outra vez, em um jogo de RPG com meu best, eu estava sob pressão em uma cena onde o rei tentava forçar a minha personagem a transar com ele e eu tentei de todas as formas falar de um jeito bonitinho. Não queria falar “Você não me possuirá” porque achei muito exorcista. Não quis dizer “Você não vai me comer” por motivos óbvios. Então achei genial a ideia de dizer que o rei não ia tê-la em sua cama e então eu disse “VOCÊ NÃO ME TERÁ” (se você não entendeu, repita rápido em voz alta pra entender). Conclusão: até no cartão de natal a gente escreve um pro outro que “você não meterá”.

Por último, uma vez eu estava brincando de “roubar o espaço” com um amigo meu do trabalho e quando eu estava ao telefone, de costas, eu senti alguém tomando meu espaço e eu dei uma bundada enorme na pessoa pensando que era ele. QUando eu me viro era a minha chefe olhando com aquela cara de WTF e eu pedi desculpas.

Todas essas situações – e milhares de outra que eu poderia escrever um livro só de micos que eu paguei – foram embaraçosas. Foram grandiosos micos que eu paguei. Foram situações que eu poderia tentar arrancar minha cabeça e jogar futebol com ela pra ver se a vergonha passava. Mas eu aprendi a rir disso. Eu ri porque eu sou um ser humano que comete erros, que paga micos, que sabe que todo mundo está suscetível a isso. Eu aprendi sim a rir das situações em que eu me encontro e que são verdadeiramente cômicas. E eu acho isso MUITO importante pra todo mundo.

Sabe, a vida é tão séria hoje em dia. Todo mundo corre demais, trabalha demais, tem que levar a sério tudo o que faz, que no fim das contas quase não sobra tempo pra gente dar umas boas risadas. Então levar as cagadas que a gente faz com leveza faz parte de uma vida melhor. Só que isso em momento algum inclui o preconceito.

Quando você é vítima de um preconceito, você é vítima de uma violência. Seja física, seja contra seus direitos, seja verbal. Gordofobia é violência e machuca mesmo. E isso não é engraçado. E é perfeitamente compreensível você não rir disso.

Eu nunca gostei de dar risada quando alguém cai. Já presenciei pessoas quebrando a perna por um tombo besta na rua. E é a mesma coisa com o preconceito. As pessoas podem até não saírem com a perna quebrada, mas saem com a alma e o coração partidos em mil pedaços.

Antigamente, quando eu não entendia essa coisa de gordofobia e achava que eu tinha que ser engraçada e rir do preconceito pra “compensar” a falta de magreza, eu mesma chegava falando várias gordofobias sobre mim. Aquilo me machucava por dentro mas eu queria provar que não.

Eu dizia que eu não sentia frio porque gorda não sente frio (mesmo que eu estivesse congelando). Eu dizia que eu não tinha um prato favorito porque gorda não tem só um prato favorito (de fato não tenho só um porque eu sou do tipo que coloca picanha e sushi num prato só). Eu dizia que não ficava tomando sol na beira da praia com medo de dormir e acharem que eu era uma baleia encalhada. Eu dizia que se eu fosse uma sereia, eu seria uma sereia jubarte. E por aí ia a lista de merdas que eu falava sobre mim mesma em uma tentaiva de mostrar ao mundo que eu era descoladona. Só que isso me doía demais e eu achava que ia passar. Nunca passou.

Ao longo da sua vida, pessoas vão argumentar essa mesma coisa. Vão dizer que você está problematizando demais, que tem que aprender a rir de si mesma. E tem mesmo como eu disse acima. Dê um crédito para si, ria dos seus micos, curta seu lado humano. Mas isso não quer dizer que você deva aceitar o preconceito que as pessoas terão com você.

É diferente você rir de quando você está esperando o metrô e aquele vento faz a sua saia levantar e você sai segurando dando uma de Marilyn Monroe. Outra coisa é alguém falar E AÍ ROLHA DE POÇO e você dar risada. A primeira é rir de si mesma, a segunda é rir da violência que você mesma sofre.

Quando você ouvir das pessoas que você tem que aprender a rir de si mesma, responda que você já sabe fazer isso, mas que rir de si é diferente de rir das babaquices alheias.

Você não tem que aceitar violência. Muito menos rir disso.

kiss the fat girl assinatura

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