O incrível fenômeno dos fiscais de prato

Não é nenhuma novidade que as pessoas da sociedade insistem em relacionar o ato de comer com as pessoas gordas, como se comer não fosse uma necessidade humana mas sim um crime cometidopor gordos. Inclusive, falando sobre a palavra “gordice” que consiste em relacionar comida – normalmente gordurosa e lotada de açúcar – a Não Sou Exposição fez o seguinte texto:

Se pizza é “gordice”, alface é “magrice”?

Vivemos num contexto social que relaciona culpa com o ato de comer. E se você declara que está cometendo uma gordice, implica na ideia de que você está comendo algo que não deveria e se aproximando do ‘comportamento típico dos gordos’.

“Eu estou MOMENTANEAMENTE me comportando como uma pessoa gorda, mas eu não sou assim, ok? É apenas uma gordice. Me absolvam”

Ou seja, além de ficar fácil de ver de onde surge grande parte dos transtornos alimentares, também fica fácil saber de onde surge o fenômeno mais inexplicável da vida do gordo: os fiscais de prato.

Este fenômeno é facilmente identificável quando algum gordo está comendo. Não é comendo apenas um hambúrguer ou algo considerado “não muito saudável”. É qualquer coisa. Na verdade, segundo os fiscais de prato, gordos não podem comer.

ta gorda comendo

Com licença, mas você acha que eu faço fotossíntese?

Se uma pessoa gorda está comendo salada, vem um fiscal de prato dizendo que na semana passada você comeu tapioca e que agora não adianta comer salada. Se uma gorda tá num churrasco onde todo mundo tá mandando ver naquela picanha com uma capa enorme de gordura, assim que ela der uma triscada da carne, alguém vai vir falar que você não deveria estar comendo aquilo. Óbvio, SÓ VOCÊ né? Porque o resto da galera tá de boa. Se uma gorda está comendo um x-tudo com extra bacon, o fiscal de prato vai aparecer pra contar quantas calorias, carboidratos, proteínas, gorduras saturadas, miligramas de qualquer coisa tem naquele lanche e, claro, vai bancar o vidente e adivinhar que você vai morrer em tanto tempo de tal coisa.

et GORDO

Não preciso nem dizer que o discurso favorito do fiscal de prato é o famoso TÔ PREOCUPADO COM A SUA SAÚDE. Aham, Cláudia, senta lá. O bom samaritano é tão preocupado com a saúde alheia, mas ingere altas quantidades de álcool no churrasco com os amigos, acende o cigarro pra gata no bar e tá tudo maravilhoso. Com a saúde deles ele não se preocupa né? Que sorte nós temos! SQN.

Esses fiscais podem encarnar em qualquer pessoa. Pode ser um estranho na rua, pode ser um parente seu em uma festa de natal, pode ser uma pessoa que até te conhece um bocado de vista mas não tem qualquer intimidade com você, pode ser um colega de trabalho, pode ser seu namorado. Qualquer pessoa que se acha no direito de analisar, dissecar, desmembrar seu prato, é um fiscal de prato. E dessas pessoas você tem que cortar esse tipo de comportamento. Se a pessoa não parar, corte ela da sua vida. Faz bem.

Não é de hoje que a gente enfrenta pessoas achando que tem o direito de se intrometer nas nossas vidas, nossa alimentação, nossas escolhas. E nem vai ser agora que vai acabar isso. Ainda temos um longo caminho a percorrer na frente.

Em uma sociedade onde comer virou crime e o prazer por comer virou heresia, podemos dizer que estamos em uma nova idade das trevas para quem gosta de comer. Obviamente ninguém vai parar na fogueira por isso, mas não é de duvidar que a gente acabe queimado perante algumas pessoas.

O ponto importante é: qual o problema em ser gorda e gostar de comer? É o problema de reforçar a ideia de que somos gordas, assumimos ser gordas e, se por acaso ser gorda fosse proveninente de um único fator de não se privar de comer, nós estaríamos negando a única “oportunidade de mudança”? Em outras palavras, o problema é eu não querer fazer dietas? Tem alguma lei me obrigando a fazer dietas? Não que eu saiba.

Esse tipo de comportamento só traz coisas ruins. Uma pessoa que é fiscalizada só vai se sentir incomodada com o julgamento alheio e acaba por deixar de comer quando estiver em público, o que significa abrir mão de um direito dela que não influencia a vida de ninguém que não seja a dela. Ou pior, se for uma pessoa com uma tendência, pode gerar um transtorno alimentar nessa pessoa só porque você, cara pálida, se acha o super contador de calorias do prato que não é seu. Por que você não vai analisar o SEU prato e deixa o dos outros em paz?

Comer não é errado, não é crime, não é pecado. É uma necessidade de sobrevivência e, por que não, pode ser sim um prazer se você tem esse privilégio de poder escolher o que come? Vai negar um direito, uma necessidade em prol de uma obsessão pelo corpo? Qual o próximo passo? Deixar de fazer xixi?

Olha só, meu amigo de fé, meu irmão, camarada, vem cá que eu vou te contar uma coisa: todo mundo precisa comer, ok? Eu gostaria de dizer que todo mundo come, mas no mundo atual ainda não temos essa realidade. E eu comer ou deixar de comer aqui algo que está no meu prato não vai alimentar ou não uma criança do outro lado do mundo. Isso sim é um problema de ordem mundial e para que ele seja resolvido, precisa de mais ação e empatia e menos cagação de regra na vida alheia, ok? Ok.

Se você é um fiscalzinho de prato, sugiro que pare com isso. Você não está ganhando nada além da antipatia das pessoas por você. E se você conhece um fiscal de prato pentelho, no momento em que ele atacar eu sugiro um truque bem interessante: encha a boca com comida, abra bem e diga VOCÊ QUER UM POUCO? A preferência é que seja farofa ou algo que espirra. Você vai ver como ele sai de perto logo, incomodado.

boca cheia

Vai ter gorda comendo salada, hambúrguer, sushi, churrasco, maçã, qualquer coisa que ela quiser. E se encher muito o saco a gente joga um salzinho em você e te morde só de pirraça!!!

FAT KISSES 4U2

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4 comentários

  1. Apaixonada nesse texto, isso e um inferno ! Somos julgados a cada passo ! Uma vez na praça de alimentação de um shopping aqui de Ribeirão Preto ficaram observando o que eu r minha filha iriamos comer e dps de um.lanche do Subway, quis uma batata do MC, pra que ? Tive que ouvir cada coisa … Mas só lamento… Não dou trela ora fiscal de nada em minha vida !

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