Pode me chamar de GORDA (mas eu prefiro que me chame pelo meu nome)

Uma das principais lutas contra a gordofobia é justamente a diminuição no apagamento e da invisibilidade das pessoas gordas. E uma das formas mais comuns de apagamento é usar eufemismos como se a palavra GORDA fosse um palavrão. Spoiler: não é.

Fat Patricia

Gordinha, cheinha, fofinha, fortinha, robusta, grandinha, redondinha, roliça, excesso de gostosura, plus size, essas coisas que dão aquela disfarçadinha básica para não chamar a pessoa de gorda só faz com que a palavra e as pessoas sejam mais discriminadas. Por isso, muitas pessoas hoje fazem questão de deixar o posicionamento bem explícito: pode me chamar de gorda que eu não me ofendo. É o que sou.

gorda

Acontece que eu não sou só isso. Eu não me resumo a uma característica física minha. Eu sou um ser humano e isso quer dizer que minha existência vai muito além da letra na etiqueta da minha calça, do número que aparece na balança, do físico que você vê por fora. E mesmo se eu fosse resumida ao físico, eu sou muito mais do que apenas gorda.

Quando você conhece uma pessoa você não fala “e aí, magra?”. Ou “e aí moça de 1,72”. Ou “e aí cara do cabelo loiro médio acinzentado”. Então não tem por que você chegar para mim e dizer “e aí, gorda?”.

Mais uma vez: chamar de gorda é ofensivo? NÃO. Mas reduzir um ser humano a qualquer uma característica física dela e nada mais, é uma ofensa contra, no mínimo, a minha inteligência.

rae
Eu bebo pints*, eu juro, eu sou barulhenta, eu conto piadas!

Eu sou uma mulher, escritora, sou branca, sou baixinha, sou gorda, gosto de ver TV, gosto de aprender, tenho habilidades desde escrever uma boa redação até fazer quick massage, passando por diversas outras habilidades não necessariamente relacionadas, sou fã de filmes antigos, canto no chuveiro, tenho mais facilidade de aprender lendo ou vendo videoaulas do que dentro de uma sala de aula com um professor falando, gosto de sushi, gosto de churrasco, meu doce favorito é gelatina mas tenho preguiça de fazer, o olho direito é ligeiramente mais fechado que o esquerdo, tenho como planos assistir O Fantasma da Ópera na Brodway e fazer uma tatuagem da Miss Piggy na Coxa, detesto chuva mas adoro dormir com o barulho dela, dou risada dos meus próprios arrotos, gosto de assistir séries, sou louca por quebra-cabeças mas não tenho paciência de montar um, meu primeiro crush foi um personagem de David Bowie… e isso não é nem 1% de mim e nem de longe são coisas importantes.

Todas as pessoas são muito mais complexas que as minorias – ou das maiorias – das quais fazem parte, são muito mais do que suas profissões, suas carreiras, muito mais do que suas postagens no Facebook, do que aquele mico na balada quando estava bêbada comemorando a despedida de solteira da amiga. E para reunir tudo isso, é muito simples: todo mundo tem um nome. Ou um apelido. Ou um pseudônimo. Todo mundo é identificado de uma forma. E você pode usar isso para se comunicar. Inovador, não é?

olaf
Oi, eu sou Olaf. Gosto de abraços quentinhos!

O que eu estou querendo dizer é que não tem por que se apegar a uma característica única da pessoa e transformá-la só naquilo, uma vez que as ruas estão lotadas de seres humanos, todos de cores, tamanhos, formas e PERSONALIDADES diferentes. Não tem por que fazer alarde ao ver uma pessoa gorda. Olhe ao seu redor e repare quantas têm por aí.

Não existe necessidade de ficar tratando uma pessoa como se ela fosse anormal, expondo pessoas só porque elas não são como você – por algum motivo – acha que todo mundo tem que ser, como se saísse de uma linha de produção de alguma fábrica. Nem gêmeos são idênticos porque possuem personalidades diferentes.

O objetivo aqui não é criticar os segmentos dos movimentos sociais, mas mostrar a importância de lembrar que todos somos seres humanos. Todos temos sentimentos, todos temos anseios, sonhos, medos e pensamentos. E o preconceito resume as pessoas a somente uma característica (e essa redução muitas vezes se torna um fator excludente para o convívio social).

Da próxima vez que vir uma pessoa gorda, não precisa usar eufemismos. Pode usar o nome mesmo. Acho que é uma boa pedida.

FAT KISSES 4U2

*Pint: um copo onde cabe aproximadamente 500ml de bebida. Muito comum nos pubs Irlandeses e Britânicos.

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