Não precisa falar sobre gordas para representar gordas

Desde o fiasco com a música da “Gordinha” de Cesar Menotti e Fabiano, “All about that bass” da Meghan Trainor e outras expressões artísticas que buscam a exaltação de um outro padrão de beleza para adquirir a atenção do público de uma forma comercial, fiquei analisando o quanto é necessário para nos sentirmos representadas sem cometer esses erros ofensivos. Spoiler: não é difícil.

O clipe Toothbrush da banda DNCE deu o que falar quando foi lançado. Milhares de comentários choveram a respeito da atriz plus size que estrelou ao lado de Joe Jonas como seu par romântico em uma historinha fofa com uma musiquinha deliciosa. E o mais legal: a música NÃO FALA NADA SOBRE GORDAS.

Para quem não conhece, deixo aqui a letra traduzida:

Querida, você não tem que se apressar
Você pode deixar uma escova de dentes
Na minha casa
Na minha casa
Não precisamos fazer nada às escondidas
Você pode deixar uma escova de dentes
Na minha casa
Na minha casa

Preso em um limbo
Meio hipnotizado
Cada vez que deixo você passar a noite, passar a noite
Quando chega a manhã
Enrolados nos lençóis
Tocamos este momento repetidamente

Quando você para ali em sua lingerie
E minha camiseta da noite passada
Com seu cabelo bagunçado
E seus pés ainda descalços
Se importa de fechar a porta do quarto?

Querida, você não tem que se apressar
Você pode deixar uma escova de dentes
Na minha casa
Na minha casa
Não precisamos fazer nada às escondidas
Você pode deixar uma escova de dentes
Na minha casa
Na minha casa
Pois eu não consigo te largar
Você me deu algo que não conhecia antes
Então querida, você não tem que se apressar
Você pode deixar uma escova de dentes
Na minha casa
Na minha casa

Nem precisa perguntar da próxima vez que nos vermos
Eu sei que você irá para casa comigo, para casa comigo
Suar como em uma sauna
Quebrar o gelo
Eu sei que você vai passar a noite, passar a noite

Quando você para ali em sua lingerie
E minha camiseta da noite passada
Com seu cabelo bagunçado
E seus pés ainda descalços
Se importa de fechar a porta do quarto?

Querida, você não tem que se apressar
Você pode deixar uma escova de dentes
Na minha casa
Na minha casa
Não precisamos fazer nada às escondidas
Você pode deixar uma escova de dentes
Na minha casa
Na minha casa
Pois eu não consigo te largar
Você me deu algo que não conhecia antes
Então querida, você não tem que se apressar
Você pode deixar uma escova de dentes
Na minha casa
Na minha casa

Eu não quero que isso acabe
E não há razão para fingir
Se você ficar comigo novamente
Se importa de fechar a porta do quarto?

Querida, você não tem que se apressar
Você pode deixar uma escova de dentes
Na minha casa
Na minha casa
Não precisamos fazer nada às escondidas
Você pode deixar uma escova de dentes
Na minha casa
Na minha casa
Pois eu não consigo te largar
Você me deu algo que não conhecia antes
Então querida, você não tem que se apressar
Você pode deixar uma escova de dentes
Na minha casa

Percebam que em nenhum momento ele falou do peso dela, sobre ela ser gorda ou “fora dos padrões”. Perceba que é um cara falando para uma garota por quem ele está claramente apaixonado que ela pode deixar uma escova de dentes na casa dele, o que significa que ele tem planos de deixá-la dormir lá mais vezes e passar o dia com ela. Na verdade nos Estados Unidos a questão de deixar a escova de dentes na casa de uma pessoa significa que ela quer realmente assumir um compromisso com a pessoa. E é isso o que precisamos apenas: saber que podemos ser aquela garota de quem eles falam nas músicas.

Outra forma de representatividade que deu a maior polêmica foi o novo time de Caça-Fantasmas. Além de ser um time totalmente feminino e o secretário ser o “bonitão burro” (trocando os papéis que há muito são usados no cinema), é que duas das atrizes são gordas.

Melissa McCarthy e Leslie Jones estão no time como duas fortes representantes das mulheres gordas mostrando toda a sua inteligência e irreverência e, claro, quebrando tudo. Elas não são apontadas como as gordas. Elas não são mostradas como OLHEM SÓ PARA NÓS ESTAMOS INCLUINDO MINORIAS BATAM PALMAS PARA MIM! Não. Elas são cientistas unidas combatendo fantasmas por NY. Ninguém aponta isso como o foco.

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O corpo gordo é apenas um tipo físico. Uma característica física. Assim como ser magra, assim como ser alta, assim como ser baixa, assim como ser loura, assim como ser morena, assim como ser ruiva, assim como ter olhos pequenos, assim como ter lábios grandes etc. Nada mais que isso. É apenas uma variação de corpo. E para nos sentirmos representadas precisamos apenas existir na grande mídia. Mas não é um existir qualquer. Não é para existirmos para sermos a piada como somos há eras. É um existir para saber que podemos ser o que quisermos.

Quando a Anitta se apresentou  no Criança Esperança, muitas gordas ficaram em polvorosa. Ela interpretou a música “Perigosa” das Frenéticas com bailarinas gordas arrasando no palco. Ninguém precisou apontar, mostrar, pedir confete porque ela colocou bailarinas talentosíssimas gordas ali. Ela simplesmente colocou bailarinas. E ponto final.

Outro exemplo de excelente representatividade sem apontar o dedo para “a gorda” é o filme “Como ser solteira” onde Rebel Wilson interpreta Robin, uma solteira convicta que não quer relacionamento, que tem uma vida sexual super ativa e que só quer saber de curtir a vida e ponto final. É mais uma daquelas personagens não desenvolvidas que são “a louca do filme”? Sim. Mas elas sempre foram interpretadas por belas magras e agora tem uma bela gorda interpretando e deixando explícito o assunto: não tem essa de “toda gorda é desesperada pra arrumar um homem a qualquer custo”. Na verdade, muitas não querem um relacionamento.

rebel single

O melhor modo de representar as gordas não é falar sobre nós, mas nos dar espaço, nos dar visibilidade. Nos dar abertura para tratar de assuntos que até agora só as magras tiveram oportunidade. Nós ficamos felizes como todo mundo, ficamos tristes como todo mundo, ficamos doentes como todo mundo, algumas querem uma família, outras querem ser solteiras com uma carreira promissora, outras querem os dois, algumas querem ser apenas hippies para sempre. Por dentro desta “camada de gordura” que as pessoas vêem, tem uma pessoa que tem sonhos, dores e sentimentos como qualquer uma. Sei que isso pode ser um choque de realidade para muitos. Mas somos só pessoas que a mídia não “vende”. E a melhor forma de expor isso é nos colocando nos cenários da mesma forma que estamos em todos os lugares na vida real.

Se você é um artista e quer representatividade gorda, coloque uma gorda atendendo em uma loja, ou coloque ela como sendo a paixão adolescente de um carinha no colégio, ou coloque ela como a nova namorada de um viúvo em um seriado, ou mesmo como como aquela escritora lésbica de sucesso que é super importante na sua peça. Não precisa ir muito longe. Apenas nos trate como normais, pois é exatamente o que somos: apenas pessoas que vivem no mesmo planeta que você.

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