Quem se importa com os sentimentos da gorda?

Quando achei “Quatro amigas e um casamento” na Netflix o resumo não me agradou muito. Mas como eu queria muito descobrir se eu estava errada, acabei assistindo até o fim para poder tirar a prova real. Seria melhor ter visto o filme do Pelé.

Tirando o fato de que o filme é chato e lotado de clichês toscos do cinema, o que mais incomoda é que ele expõe de forma escancarada a gordofobia, a invisibilidade dos sentimentos das pessoas gordas mas não é de uma forma crítica e sim de uma forma como se isso fosse ok. Spoiler alert: não é ok.

O filme gira em torno do casamento de Becky, interpretada pela diva Rebel Wilson, ou pelo menos deveria ser assim. Acontece que de 4 amigas, Becky é a única gorda da turma e é incrivelmente a primeira a se casar. E, segundo as regras sociais para ser feliz e ter sucesso (que deve consistir em se casar com um cara), uma pessoa gorda deve ser a última a se casar. Ou nem se casar. Apenas viver sozinha, isolada, obviamente chorando porque nunca conseguiu se casar como se fosse a única coisa da vida (e como se todo mundo quisesse isso).

Então, temos Regan, interpretada por Kirsten Dunst, que é a personificação da mulher perfeita segundo as mesmas regras sociais citadas acima. Ela é estudada, loira, branca, magra, usa tons pastéis, tem olhos claros, faz trabalho voluntário com crianças de 12 anos que fazem quimioterapia e é uma lady na sociedade. Acompanhada de suas duas amigas “loucas”, Gena e Katie, Regan revela seu lado “socialmente rebelde” que consiste em consumir cocaína, álcool e fazer um monte de merda que o filme tenta pintar como uma simples rebeldia. Regan tem um namorado que não está nem aí para ela (e nem aparece no filme) e ela acaba até se envolvendo com um cara bem escroto que insiste em deixar sua misoginia bem explícita com frases como “Para sair com uma mulher basta fazer ela se sentir péssima consigo mesma”. E o drama do filme foca em quem? Na magra maravilhosa que não se casou primeiro que a gorda.

omg

Para vocês saberem que eu não estou exagerando, tem uma parte no filme onde ela mesma fala isso. Ela diz que faz “tudo certo”, que se alimenta corretamente, que faz exercícios, que completou os estudos e segundo ela “nada” está acontecendo na vida dela (nada = ela não está se casando).

Depois disso, para tirar uma onda da própria amiga, ela deixa as outras duas amigas usarem o mesmo vestido de noiva para “brincar” de caber duas pessoas no vestido da gorda. E eis que ele rasga e elas começam a ir atrás de uma forma de consertar tudo isso.

Uma das cenas seguintes é quando de madrugada elas conseguem fazer com que a dona da loja de vestidos abra para que elas comprem outro vestido e, quando ela apresenta o único que tem do tamanho que serviria, ela diz que não, que ela não vai deixar Becky se casar com aquele vestido que era o sonho dela. O sonho da Becky, no entanto, que se dane.

Depois de muitas reviravoltas clichê, o vestido acaba costurado de uma forma meia boca, com manchas de sangue e sêmen e ela deixa que a amiga se case assim mesmo. O importante é que ela já cometeu a audácia de se casar antes dela e comum homem bonito ainda por cima. Onde já se viu querer usar um vestido novo que, por acaso, não deveria ter sido rasgado por três mulheres adultas fazendo uma brincadeira idiota com a amiga?

rebel angry

Mesmo quando o tema é o casamento de uma mulher gorda, ela não é o foco. Ela fica em segundo plano, bem lá no fundo, no cantinho, servindo de adorno na coisa toda. E poderia ter sido muito diferente.

O filme poderia mostrar como nós nos sentimos quando as pessoas descaradamente têm inveja de um relacionamento bem sucedido. Poderiam mostrar como nos sentimos quando estamos com alguém e uma sociedade inteira tenta te arrastar, te fazer ficar mais insegura ainda só por conta do seu peso. O filme poderia mostrar como lidar com as pessoas ao seu redor quando elas falam que você deve ter uma vagina mágica pra enfeitiçar um cara bonito porque só assim pra ele se casar com a gorda, né? Poderia ter muito mais do que isso. Muito. Mas não, Hollywood preferiu retratar o mainstream do mainstream quando se trata de uma gorda feliz: falar da inveja que as magras sentem ao redor e de como elas que “fazem tudo certo” são injustiçadas porque elas deveriam estar sendo felizes no lugar da gorda.

Em um momento, Becky fica brava e acaba com a despedida de solteira dela quando o stripper a chama pelo antigo “apelido” de escola, “Cara de Porco”. Se você passa os anos de escola sendo chamada assim e um stripper do nada te chama da mesma forma anos depois, óbvio que não tem tesão que supere isso. Depois, Becky se sente culpada e pede desculpas a Regan dizendo o quão boa amiga ela era por ter deixado sua vida de lado por seis meses para organizar o casamento. Só que aí entra a revelação: Becky lembra de como salvou Regan de um escândalo no colégio quando ela foi descoberta com bulimia e, para piorar o bullying que ela já sofria, ela ainda levou a doença da amiga como se fosse dela para que Regan não sofresse com isso.

O único momento todo do filme que falou realmente do sentimento de Becky foi quando no final ela se mostra nervosa para entrar no altar e diz: “As pessoas me acham muito gorda para ele”. O tempo todo em que Becky não apareceu, ela poderia ter revelado mais do que isso. Ela poderia ter falado de pessoas que reagiram mal à notícia, que sequer disfarçaram a isso. Ela poderia ter dito como foi o namoro deles. Ela poderia ter falado sobre conselhos que ela com certeza recebeu de emagrecer antes do casamento para aparecer uma noiva magra (e se manter assim porque a fidelidade do marido depende do peso dela, claro). Ela poderia ter dito tudo aquilo que queremos dizer, mas não dizemos porque ninguém nos ouve. E se ouve, fazem pouco dos nossos sentimentos.

Cada vez que vejo críticas à música da Adele falando que “se quisessem ver gorda sofrendo, iria à academia”, é nisso que eu penso. Eu não penso em quem não quer ficar com as gordas, danem-se eles. Eu não penso em quem fetichiza. Eu não penso em com deve ser difícil pra um cara que namora uma gorda ouvir piadas de sua família quando ela não está ali. Eu penso em nós. Naquilo que não é dito. Naquilo que não é exposto. Naquilo que depende somente de blogs que abordem esses assuntos para ser dito. De filmes que não falam sobre como é ser sempre a personagem secundária – menos quando é comédia como Norbit ou Vovó Zona onde a piada SOMOS nós. De como é ser vista como problema. De como é se sentir sempre como uma peça do cenário mesmo que o filme gire em torno de nós de alguma forma.

Eu realmente tenho esperanças de que este trabalho de desconstrução, conscientização e representatividade que estamos fazendo atualmente dê melhores resultados na grande mídia. Nossos passos ainda estão pequenos, mas estamos cheias de energia. Até lá, seguimos na luta. E pra quem não gosta… Sorry not sorry.

rebel fuck everyone

 

FAT KISSES 4U2

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