A moda como forma de empoderamento

Há 16 anos atrás, quando não se falava em empoderamento, aceitação do corpo gordo ou moda plus size, eu completei 15 anos e tive minha festa de debutante como eu sempre quis. Quer dizer, eu quis a festa, mas nada foi como eu quis.

Era a época em que o Titanic, um dos filmes mais famosos da história do cinema, ainda repercutia sua fama. Era meu filme favorito e meu sonho era entrar com o vestido vermelho da Rose após a meia-noite. Só que isso não aconteceu pelo simples fato de que eu era “gorda”. (Spoiler: não, não era).

titanic rose.gif
Meu vestido =(

Antes que meus brados pudessem ser ouvidos, acabei com um vestido lavanda com um decote princesa (que por acaso eu ODEIO) com umas rendas e todo mundo dizia que era o vestido dos sonhos. Para mim foi um pesadelo.

Por baixo daquele lindo vestido esvoaçante (mas não muito porque “gorda” não pode usar tecidos leves), eu estava toda apertada, com uma armadura. Lembro de ter usado uma daquelas meias-calças que apertam a barriga e empinam a bunda, com uma cinta ao estilo collant por cima e pra fechar com chave de ouro uma daquelas calçolas dignas de Bridget Jones. Ou seja, se eu não ficasse roxa, era sinal de que ainda estava respirando.

bridget calcinha

Lembro de me sentir mal. Lembro de me sentir de armadura. Lembro de fazer piada dizendo que eu estava pronta para a guerra. Lembro de dizer de boca cheia que mulher para ficar bonita tem que sofrer. E lembro de sofrer muito. Não por ser gorda. Mas pela injustiça que eu sentia sobre mim pensando “Por que só pessoas magras merecem dançar tranquilas, sair em fotografias e se casar com um vestido bonito? Não é justo”. Não. Não era justo.

Corta pra quase 15 anos depois.

Fundei o antigo blog #Partiu 3.0 onde eu falava justamente das coisas que a sociedade espera de nós aos 30 e da minha vida aos 30. E foi aí que eu conheci o Lugar de Mulher que foi um grandioso aliado no meu empoderamento. E os posts sobre o que gorda pode ou não pode (spoiler: PODE) eram meus favoritos. Mesmo assim eu só ficava babando nos looks e não tinha a mesma ousadia das blogueiras e modelos de usar looks. Foi aí que um dia eu cismei que queria um cropped top… E comprei. E usei!

lika crop
Desculpem, só achei essa foto dele já gasto e depois que eu fiz a caveirinha da Funérea nele pra um cosplay >_<“

Depois disso, passei a ousar nos meus looks e comecei a usar tudo o que eu tinha vontade mas não tinha coragem porque ia chamar “atenção demais” (não apenas por eu ser gorda, mas porque eu curto umas coisas diferentes como vocês verão). E quanto mais eu ia acompanhando Tess Holliday, blogueiras e instagramers gordas, mais eu ia tomando coragem para montar meus looks com criatividade e ousadia e mais eu ia me empoderando porque se colocar na rua sabendo que os olhares vão dobrar não porque estou um ahazo (spoiler: estou), mas porque eu estou ousando andar “fora da moda” e “fora dos padrões ao mesmo tempo, é sim um ato de coragem principalmente pra quem quase morreu tentando emagrecer (obs: o nome da matéria está como Mina Mostell porque era um nome artístico de quando eu escrevia com outras pessoas).

Obviamente nem tudo na moda plus size é um ato de empoderamento. Não é nada empoderador saber que você precisa pagar o dobro pela mesma peça que vai até o 44 com a desculpa de que usam “mais linha” (amiga, a menos que usem 3 carretéis inteiros em uma peça, isso não é justificativa). Pagar R$ 300,00 por um vestido para não andar pelada ou não andar parecendo um quiosque de natal com aqueles tecidos de estampar horrendas que pegam cheiro de tudo e são quentes como o interior de um vulcão, não é empoderador, não é sequer acessível, quanto mais justo. Se sentir podada por uma etiqueta (seja de tamanho ou preço) não tem nada de empoderador. É só mais uma forma de limitar gente gorda de se vestir.

Mesmo assim, a partir do momento em que você encontra uma costureira de confiança, uma boa loja onde você possa comprar e que seja mais acessível, ou mesmo calhar de entrar em uma lojinha de rua e encontrar ali uma peça linda que te serve, não tenha medo de usar. Se é do seu gosto, use.

O empoderamento não é a casca, não é o visual, é o que você sente ao se vestir daquela forma, ao se expressar daquela forma, ao se maquiar daquela forma, ao andar daquela forma, ao cantar daquela forma. Por “aquela forma” tenha em mente um momento único dentro de você como exemplo, aquele que você se lembra, que só você entende do que eu estou falando. O empoderamento é a coragem e a ousadia de se posicionar frente ao mundo e dizer “HEY, EU SOU ASSIM. QUEM NÃO GOSTAR, QUE SE RETIRE POIS ESTOU PASSANDO!”

A moda é só uma das ferramentas que te ajudam a se empoderar diariamente. É a expressão artística da sua alma como forma de você se apresentar para o mundo. E nada mais justo do que você se sentir bem e não ceder às limitações que a sociedade te impõe (nem mesmo os estilistas famosos que nem te conhecem).

kiss the fat girl assinatura

Foto da capa: Kerosene Deluxe

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